domingo, 22 de janeiro de 2012

É proibido ser gente nesta cidade

(Dedicado à população do Pinheirinho)

Esta cidade é nosso lar
E hoje nosso lar amanheceu em chamas
Como se não fosse domingo
Entraram por suas casas
Demoliram suas casas
Como se não fossem gente

Na pequena igreja daquele bairro
Já não havia missa
Foi também o Cristo desalojado
E posto à rua com os outros pobres

E os supostos líderes esperavam
que estas pessoas, pobres em tudo
Fossem também, como eles
Pobres em coragem
Em vão!

Foram expulsos pelos ratos
E irão dormir na lama
Mas não se tornaram ratos
como os covardes deste município

Mulheres, crianças, trabalhadores
Moradores, com empregos e desempregos
com sonhos, com seus erros e sua coragem
É deles a minha fraternidade

Hoje não se cumpriu a justiça
Amanhã aquela terra estará vazia
Seu único habitante: o capital

É proibido ser gente nesta cidade

Teles Maciel

terça-feira, 22 de novembro de 2011

O Vão.

Entre a igreja e a boemia
existe um vão.
Nesse vão não se vê insanidade,
nesse vão não se vê religião.

É provável que nesse vão
haja tristeza, medo,
incertezas talvez
e é nele que me encontro.

Longe da cegueira etílica
e dos que a pregam para o irmão,
mas perto de um ponto em comum
entre destreza e a cética razão.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Aquele que é proprietário de tudo
E não ama
Tudo lhe falta
Mas aquele que não é proprietário de nada
Porém verdadeiramente ama
Para este não falta nada

Mesmo uma represa de alegrias
É uma represa triste
As coisas que se estagnam
Fazem mal ao coração

Aprenda a viver como o rio
Deixe a flor onde a encontrou
E reconheça a beleza de tudo
Na beleza da flor

Teles Maciel

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Convocação

1.

Poetas que foram
Poetas que são
Poetas que serão
É chegada a hora de preparar a argamassa
Para um mundo novo
É chegada a hora de derrubar a casa
Que já não serve mais
E eu lhes entrego esta marreta
Em suas mãos

sábado, 5 de novembro de 2011

Um milhão de coisas à serem feitas

1.

Um milhão de coisas à serem feitas
E tão limitado é o tempo para fazê-las
Por que eu haveria de seguir manuais
Que me digam o que fazer do meu tempo?

O caminho é estreito
E é largo demais o pensamento
É preciso atirar longe à análise da vida
Aquele que estiver realmente disposto
À viver

O que eu sei sobre mim
Eu posso saber sobre vocês também
E apenas ver por fora a palavra
Confundiria todo o aprendizado

Nascido incompleto
Do ventre incompleto do mundo
Sei que miserável é o homem
Que se diz completo sendo sozinho

Não trago comigo minha lista de afazeres
Nem cobro de você que me apresente a sua
Não reconheço um patrão entre dois homens
Eu só vejo homens, líderes e irmãos

Não irei dizer que a filosofia é inútil
Pelo vão de qualquer idéia
Eu posso fazer uma porta
Deste ponto ao quase infinito

2.

domingo, 30 de outubro de 2011

Não tenha medo de mim

Não tenha medo de mim
Pois eu não tenho medo de você
À parte a minha barba e o
meu comércio
Sou apenas um menino

E à parte o menino
Sou o homem perfeito
Para a mulher perfeita

E da planta dos meus pés
Ao topo da minha cabeça
Eu lanço
Minha candidatura ao seu amor

Teles Maciel

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Chove

Por que eu conheceria à mim mesmo
Eu que nunca me fui apresentado
Senão pela histeria dos outros
Senão pela anarquia triste do dinheiro
Ou quem sabe pela pele roxa da solidão

Mas não para de chover
E talvez porque não pare de chover
Eu me sinta assim
Secretamente irmão das coisas
Que não tem irmão
Invisível para mim mesmo através
Dos meus próprios olhos
Olhando de dentro e de fora

É o bastante estar aqui, eu sei
Porque o tempo está sempre ocupado
Não reclama das estações e seus tamanhos
Não torna a luz maior ou menor por vaidade

Dirão o que?
'Apenas passou aquele homem, como o vento
Pela casa aberta'
Ou coisa menos bonita que essa
'Ele amou, gritou, teve filhos e sobreviveu'
Se é que isso importa

Venha me ver, estou dormindo
Em meu quarto dentro de mim
Embaixo do telhado e da fachada acrílica
Do cobertor estéril e por sobre a cama
Farta
Enquanto chove

Teles Maciel